quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Retrospectiva anual de um sentir profundo.

Mais um ano, mais uma sucessão de dias e escolhas. Outra vez o balanço que se faz quase sem querer, ou não estivesse na nossa natureza a certeza dos ciclos que tudo renovam.

A vontade de recomeçar.

Encontros e despedidas, sal e doce. O coração a bater ao ritmo da chuva, o Amor a despontar como uma flor em Abril, o desejo a queimar como fogo, as lágrimas a correr como a água do rio.

As horas em que a imaginação voa ao contemplar esta maravilha que é a vida sob todas as formas.

As vozes dos que amamos como música de fundo, a dar-nos alento quando tudo se torna tão duro que parece impossível continuar.

O olhar dos amigos cúmplices que sentem o mesmo que nós e não é preciso dizer nada, a sorte de partilhar a existência com eles, aqui e agora.

Quantos sabores e risos! Quantas conversas sob as estrelas enquanto as nuvens correm empurradas pelo vento.

Os segredos da Lua, os abraços como um Mar, as promessas do Sol.

Que tudo isto renasça todos os dias. Todos os anos das nossas vidas.



terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A tarde corria dourada e preguiçosa, e a conversa entre Ana e Teresa girava à volta da vida das duas, uma virada para fora, outra para dentro. A primeira a tentar sufocar a relação que tinha com o companheiro, a outra a tentar resgatar uma série de coisas dentro de si mesma.

Ana dizia que tinha de ter um filho e que tinha de decidir se compravam a casa, pois sabia (oh certezas absolutas da imaturidade) que Carlos nunca se iria embora da vida dela se isso acontecesse! Repetia "para sempre" no seu discurso ansioso. Teresa falava-lhe da insatisfação gigante por detrás dos "para sempres", e nos projectos em construção que caem por terra enquanto tentas preencher a relação com bens ou filhos ou... e passas a ter uma obsessão e a gastar um imenso caudal de energia em vão. Dependes de alguém permanentemente e isso é muito cansativo para os dois.

Teresa dizia pacientemente:

"Fala-se do Amor como sendo algo difícil de encontrar, tipo tesouro no deserto. Ou que podes ter uma sorte incrível e alguém to traz sem pedires. E que quando acontece, é suposto fazeres um esforço muito grande e sacrifícios para o alimentares. Nada disso! Na verdade só tens de escolher estar e ser tu próprio."

Ana perguntava se valia a pena lutar, com o canto da boca a tremer ligeiramente, enquanto segurava o copo de sumo de uma maneira que fazia lembrar as crianças quando ficam desapontadas.

Teresa acendeu um cigarro e respondeu devagar:

“Ana, o Amor está dentro de ti. Se lutas, é território. O Amor não tem barreiras nem fronteiras, permanece sem possuir e permite-te seres inteiro e aceitar o outro como ele é. Só dessa forma é possível estares com alguém e sentir que chegaste a casa e não te falta nada!"



Gerês

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Amo Novembro.

Olho para longe e tudo parece uma aguarela. A montanha com cores de outono diluídas, o azul do céu misturado com neblina, o dourado do sol meio esvaído.

As sombras das árvores na parede do edifício à luz da manhã, as nuvens como mantas de algodão macio, o som do meu coração e o café a saber a outras paisagens.

Olho de perto e as folhas têm um vermelho tão vibrante que lembro a lareira e o bom vinho que nos espera.

Vejo a tua face, tão nítida.

Amo a Vida.



(Foto pledent.deviantart.com)

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Alice saíra a correr, com o coração aos saltos e o botão da saia azul quase a caír. A caixa de costura sobre a mesa e a disposição mental para as tarefas domésticas, onde se incluía coser botões, no nível menos que zero.

Até quando Rita conseguiria accionar o outro botão, que disparava o fogo no corpo e a ternura no coração? Pergunta que começava a deixar de fazer por estar exausta, apenas queria abandonar-se no cheiro dos cabelos da mulher que amava, abraçá-la e perder o fôlego.

“Isto é vício de veneno, sem remédio”.

As horas escoavam-se, e ficava a imagem dela até surgir um qualquer assunto que lhe desviasse o pensamento. Por pouco tempo, porque a seguir vinha um cheiro e uma imagem e uma desculpa qualquer para que a presença de Rita voltasse a ocupar todo o seu ser. A envenená-la, porque de facto nada avançava para além do físico e da imaginação do que poderia ser uma vida partilhada.

Alguma coisa empancava na porta que rangia na Casa do Tempo, e nunca a deixava fechar-se nem abrir completamente.

Os dias passavam; o sol não queimava a angústia de Alice, tampouco a chuva arrefecia o desejo, e o vento não mudava a direcção do seu querer.

“Que raio de meses, quase um ano nisto! Atendendo a que uma paixão dura em média dois anos, ainda tenho que penar!”

Ela no fundo sabia que queria estar doente, até sempre de preferência, porque quando um vício toma conta do teu corpo, os poucos momentos de lucidez não chegam para insistires na ideia de recuperar a tua (outra que será que vale a pena) VIDA.

"Que se foda, portanto", pensava ela, enquanto o botão desistia de estar seguro por uma ínfima linha azul, tão azul como o sonho que alimentava Alice.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Hoje gostava de vos falar de intrusos. Porque a vida neste planeta mais parece um filme de ficção científica, de tal maneira somos invadidos a toda a hora.

Da minha janela observo a mulher que todas as noites invade o monte de lixo, quase na hora da recolha efectuada pelos funcionários do município e retira de lá as mais variadas coisas. Vem carregada de sacos e invade a minha janela e o meu cigarro, o que por sua vez provoca uma invasão da minha mãe à minha memória, a dar-me um sermão por eu fumar. Cheia de remorsos e a pedir desculpa aos pulmões, vou para o “facebook” tentar encontrar coisas parvas para me distraír. Quem é o intruso aqui? Neste caso são dois, eu que me intrometo nos murais alheios e os tipos que atiram com com links cheios de vírus e publicações que já me enganaram, vocês sabem, quando eu era mais nova e não sabia nada da vida. Decido meditar antes de dormir o que nem chega a acontecer, pois caio redonda MESMO no meio do azul escuro do sono! Desta vez os intrusos atacam os meus sonhos e nem sempre são amáveis e fofinhos...

Acordo e saio para apanhar o metro. Sinto que o anonimato da grande cidade é muito saboroso! Eis senão quando surgem os rostos conhecidos e a publicidade do costume, eu a sentir-me invadida por eles e pela ideia de que preciso de um psiquiatra que me ajude, afinal só te invadem se tu deixares... mas tenho consciência de que algo em mim avariou permanentemente e o médico vai desistir de me tratar. Procuro ignorar o pessoal do escritório que sabe SEMPRE onde estou! Podia falar-vos de como me sinto invadida por produtos tóxicos transportados nas bebidas e comidas, mas não quero que me internem já, por isso adiante!

Quando termino o trabalho, respiro o ar invadido por cheiros que chegam de todos os cantos e tento decifrá-los. E o que mais me impressiona é o do chocolate que vem ali da esquina e que sigo como um cão! Peço um dos grandes e a senhora que mo vende e é muito amável, estabelece um diálogo mais comprido comigo do que seria de esperar. Refere a sorte que tenho por ser magra e eu sinto uma intrusa na minha pele em vez do elogio. Sento-me a tomar o MEU chocolate. Observo uma formiga que invade o pequeno açucareiro e tento perceber onde estão as suas irmãs. Saio a pensar na organização perfeita dos formigueiros e regresso a casa, onde tento não me intrometer na conversa do meu filho, plantado em frente ao computador e cujo telefone não pára. Esta tecnologia, definitivamente intrometida na intimidade das casas adia as conversas e os risos...

Vou tomar um banho. E agora são os teus olhos que se intrometem nos meus, a tua língua (abençoada) que se intromete na minha boca. O que eu esperei para te beijar!

Neste ponto não deixo que se intrometam, por isso já me calei.





quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Enquanto tostava sementes de girassol, o pensamento voltava às ruas despejadas de gente, por onde tinha passeado ainda há pouco. Que prazer, rodopiar o guarda-chuva debaixo das nuvens carregadas, a rebentarem ao mesmo tempo que as bolas da pastilha elástica! O cheiro do ar trazia-lhe à memória outras noites, no barco com ela. Os pingos, "plic ploc", a cantarem na água. E os beijos como se não houvesse amanhã!

Por quantas marés passaram desde então, ora ao sabor da corrente, ora enfrentando vagas assustadoras! Sempre de mão dada, mesmo quando parecia que os dedos se iam desprender e o abismo estava ali mesmo por baixo, tão convidativo a abandonarem-se! O mais fácil é perdermo-nos neste grande oceano que é a Vida. Ainda bem que continuam a viagem de longo curso.

Paragem para o jantar de agora. Que presente maravilhoso que o Tempo lhes oferecia, a Vida juntas!

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Na memória tem o mesmo olhar sobre ele, mas agora percorre outra rua, e a nova porta tem uma chave em forma de coração. Só que, invariavelmente, também na memória, desemboca na mesma mesa de madeira tosca, e sente a superfície irregular onde há marcas de copos e cheiro de histórias de quem sonhou e falou demais. Pensa nas vezes em que o vinho se entornou no meio das palavras, e nos pastéis de massa irrepreensivelmente folhada, saboreados com risos, lágrimas e espantos. E sente as almas iguais, mas os corpos separados por um largo mar e uma dor funda no peito.

Caminha até encontrar um "lugar seguro", onde decide tomar um café expresso, porque a espuma lhe recorda que a vida se desfaz rapidamente. Bom é saboreá-la enquanto dura.

Olha o céu. Fica presente ao brilho das estrelas, antes que seja tarde. Sabe que lá em cima é como cá em baixo - nascemos e morremos a cada instante.

domingo, 6 de setembro de 2015

Ele tem o olhar no sinal do ombro dela e o nariz com farinha. Está a mastigar de boca aberta, obviamente deliciado.

E diz ela:

"Olha aí, não te babes!"

E riu-se, com o seu riso claro e a luz nos olhos de quem vê a alma do outro.

A manhã, clara e luminosa, envolvia os dois. Não existia mais ninguém no mundo, com certeza.

Rosa continuava a observar o companheiro, divertida, pensando que as horas melhores da nossa vida são as dos prazeres simples. E perguntou:

"Que Ser és tu afinal, a comer com esses modos?"

E diz ele:

"Ó Rosinha, estou assim porque este pão a estalar com manteiga sabe à tua pele!"

E o sol iluminou-lhes mais os beijos.


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

É bom quando te sentas no jardim a tomar um café, escutas os risos da casa ao lado, e trocas olhares amistosos com um gato cinzento, enquanto outro, preto e branco, desfila no muro de pedra à tua frente. Ouves a voz de uma criança,

"Tia, morreu ali um pássaro bebé, eu vi!"

Outro gato, de riscas, a ouvir tudo no fundo do jardim, e eu a magicar no que vai e no que fica, na Morte que entra na Vida distraída, a espreguiçar-se, por exemplo, sob um magnífico céu de fim de tarde como este. Instantes impressos nos dias que se desvanecem e passam depressa, depressa...

Escuto novamente aquela voz infantil, o tema já é outro,

"O que é o Amor? Eu gostava de saber, é melhor perguntar à mamã!"

O menino tem a certeza que a mãe, que rega as flores, lhe vai dar uma resposta. E dá,

"O Amor é uma coisa que se abre lentamente, como as flores na Primavera!"

quarta-feira, 19 de agosto de 2015


"Gratidão de ser
por estes anos e partículas restantes.
Pela amizade,
que chega a confundir o amor.
Pela bondade,
que torna a solidão desvalida.
Pela hombridade,
à altura do céu.
Pela beleza,
que só à santidade
sobrepassa.
E é flagrante, perdulária,
noutros renascente.
Gratidão(...)
Pelas aves nutrindo os filhos
de penugem e voo.
Pela lentidão escrupulosa
da tartaruga, igual à de Plutão.
Pela leveza materna do vento
transportando pólen.
Pelo calor humílimo
da joaninha sobre a nossa mão.
E por estar na terra
uma só vez, ao sol,
nada pedindo, nenhum segredo,
como um velho lobo-do-mar."

António Osório in "O lugar do Amor"

terça-feira, 2 de junho de 2015

"Antes de começar o Verão, há sempre um mês de Primavera que se apaixonou por ele"
Miguel Esteves Cardoso

"Amo o mês de Junho!"
Susana Loubet



sábado, 9 de maio de 2015

domingo, 26 de abril de 2015

Março desvaneceu-se, passa Abril com a velocidade de um aguaceiro e nós à janela avistando Maio...


"Lá fora a chuva parara. O céu cinzento coagulava e as nuvens dissipavam-se em pequenos grumos (... ) Brincadeiras de Meninas. Doces. Uma cor de areia. Outra castanha. Uma Amada. Outra Amada um Pouco Menos."  - "O Deus das Pequenas Coisas", A. Roy

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Mais um mês de Fevereiro que acaba e me deslumbra, é sempre a mesma coisa!

Doce que é olhar as acácias e as flores da amendoeira, as camélias perfeitas de uma só cor ou matizadas, o alecrim contentíssimo com a chuvinha que vai caindo e este cheirinho do ar frio misturado com o fumo das lareiras...

Como são mágicos os rituais deste mês em que a terra desperta devagar e há promessas de Primavera!

Como me emociona a Vida!




Fotografia de Sofia Loubet

domingo, 11 de janeiro de 2015

Janeiro de 2015

O primeiro texto do novo ano surge após uma reflexão sobre o estado do mundo, triste e gelado ante a força bruta que faz jorrar o sangue e a dor dos homens! Atentados à Liberdade de Ser por todos os lados, numa violência aterradora!

Apelo à Paz.

"Apesar de todas as festas organizadas, é uma tristeza de finados que vai pela terra..." (de Miguel Torga, IV Diário)