sexta-feira, 5 de maio de 2017

Em Abril as cerejas ficam à janela para que as admirem. Em Maio, saltam para o cesto e são de quem as apanhar. As favas também escolhem o quinto mês do ano para nos fazerem felizes, especialmente se fizermos sopa com elas. Ou se as misturarmos num puré perfumado de coentros. "Tira a camisa às favas", pede a minha mãe. E eu tiro, sempre a pensar que sem camisa é que é bom. "Sem camisa e com cerejas", digo baixinho, que a minha mãe é surda ou faz-se, ainda não percebi. "Lava as cerejas, que se põe já uma taça delas em cima da mesa". E eu faço tudo o que a minha mãe me diz - aqui em casa, porque fora dela vou apanhar cerejas sem camisa e são favas contadas.

"Concentra-te mulher, olha a hora!"

Toca a campaínha e eles vão chegando. São os beijinhos e as perguntas do costume, frutos que colhemos o ano inteiro, pois ainda aqui estamos todos, prontos para fazer da casa da Mãe o Centro do Mundo. E lá está uma grande taça de cerejas e conversas, que vamos tirando sem parar. A velocidade do pensamento abranda nestas horas de conversa morna e comida boa, é como uma meditação, preciosa para a nossa humanidade, a tal que deve prevalecer sobre o ritmo frenético para o qual nos chama o Mundo. Para não entrarmos em modo permanentemente acelarado, devemos dar espaço e tempo à intimidade. Só assim somos autênticos, que é uma coisa muito bonita de se ser.

Poder sentir e saborear a presença dos que me são tão queridos, a cor e o gosto da fruta madura, as nuvens carregadas no ar de Maio, lembra-me que tudo muda, tudo passa. Só o Amor permanece. E nós, os humanos, precisamos de Amor para aceitar a impermanência das coisas.



(fotografia de Darryl Jones - 500px)

domingo, 26 de março de 2017

As águas de Março caíam livremente, e os dois caminhavam muito juntos debaixo do guarda-chuva verde que Clara escolhera, sem hesitar, na loja em frente a casa, agradecendo mentalmente ao chinês (chinesa?) que tinha inventado essa maravilha não tecnológica. Tinha saído, já atrasada, ao encontro de Pedro, que a convidara para tomar “algo” nessa manhã que já ia longa. Tomara que fosse mais do que café.

Conheciam-se há tempo suficiente para que o olhar dele não desaparecesse da frente dela. Quanta presença é necessária para que a pele queime? Não conseguia dizer. Que palavras proferidas pelo outro abrem comportas e fazem jorrar as nossas próprias palavras? Mistério. De onde nasce a ternura que tem urgência em afagar os cabelos? Também não sabia responder! Por isso olhava o relógio, na esperança de que já fossem horas no Tempo para que os beijos pudessem permitir as respostas a estas e a outras perguntas.

Ele com o braço por cima dos ombros dela, que por sua vez, lhe admirava o pulso moreno.

Escolheram tomar café no Espaço Novo.

Clara continuava focada no pulso de Pedro (que fascínio nos empurra a atenção para um determinado ponto do Todo?), e rodeou-lho com os dedos polegar e indicador, que não uniam. Ele não ofereceu qualquer resistência. Riu-se,

“És pequena.”

O riso foi tão límpido, que Clara estremeceu. Pedro continuou,

“Eu gosto que sejas pequena. Se fosses maior, também gostava. Gosto de ti.”

Ela só sentiu. Como quando temos algo de sublime no céu da boca, e o sabor se espalha pelo corpo e pela alma.

Silêncio confortável.

E depois,

“Está um frio! E estas águas de Março...”

“Essas não são só no Brasil?”

“As águas caem quando e onde querem, como as flechas do Cupido.”

“Que farias nas águas do Brasil?”

“Navegava contigo, pois claro!”

“E as piranhas?”

“Prefiro mangas.”

E constataram, naquele momento, que a chuva e o café, misturados com flechas e mangas, são a fórmula perfeita para beijos quentes e demorados, de arrepiar!