quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Enquanto tostava sementes de girassol, o pensamento voltava às ruas despejadas de gente, por onde tinha passeado ainda há pouco. Que prazer, rodopiar o guarda-chuva debaixo das nuvens carregadas, a rebentarem ao mesmo tempo que as bolas da pastilha elástica! O cheiro do ar trazia-lhe à memória outras noites, no barco com ela. Os pingos, "plic ploc", a cantarem na água. E os beijos como se não houvesse amanhã!

Por quantas marés passaram desde então, ora ao sabor da corrente, ora enfrentando vagas assustadoras! Sempre de mão dada, mesmo quando parecia que os dedos se iam desprender e o abismo estava ali mesmo por baixo, tão convidativo a abandonarem-se! O mais fácil é perdermo-nos neste grande oceano que é a Vida. Ainda bem que continuam a viagem de longo curso.

Paragem para o jantar de agora. Que presente maravilhoso que o Tempo lhes oferecia, a Vida juntas!

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Na memória tem o mesmo olhar sobre ele, mas agora percorre outra rua, e a nova porta tem uma chave em forma de coração. Só que, invariavelmente, também na memória, desemboca na mesma mesa de madeira tosca, e sente a superfície irregular onde há marcas de copos e cheiro de histórias de quem sonhou e falou demais. Pensa nas vezes em que o vinho se entornou no meio das palavras, e nos pastéis de massa irrepreensivelmente folhada, saboreados com risos, lágrimas e espantos. E sente as almas iguais, mas os corpos separados por um largo mar e uma dor funda no peito.

Caminha até encontrar um "lugar seguro", onde decide tomar um café expresso, porque a espuma lhe recorda que a vida se desfaz rapidamente. Bom é saboreá-la enquanto dura.

Olha o céu. Fica presente ao brilho das estrelas, antes que seja tarde. Sabe que lá em cima é como cá em baixo - nascemos e morremos a cada instante.

domingo, 6 de setembro de 2015

Ele tem o olhar no sinal do ombro dela e o nariz com farinha. Está a mastigar de boca aberta, obviamente deliciado.

E diz ela:

"Olha aí, não te babes!"

E riu-se, com o seu riso claro e a luz nos olhos de quem vê a alma do outro.

A manhã, clara e luminosa, envolvia os dois. Não existia mais ninguém no mundo, com certeza.

Rosa continuava a observar o companheiro, divertida, pensando que as horas melhores da nossa vida são as dos prazeres simples. E perguntou:

"Que Ser és tu afinal, a comer com esses modos?"

E diz ele:

"Ó Rosinha, estou assim porque este pão a estalar com manteiga sabe à tua pele!"

E o sol iluminou-lhes mais os beijos.


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

É bom quando te sentas no jardim a tomar um café, escutas os risos da casa ao lado, e trocas olhares amistosos com um gato cinzento, enquanto outro, preto e branco, desfila no muro de pedra à tua frente. Ouves a voz de uma criança,

"Tia, morreu ali um pássaro bebé, eu vi!"

Outro gato, de riscas, a ouvir tudo no fundo do jardim, e eu a magicar no que vai e no que fica, na Morte que entra na Vida distraída, a espreguiçar-se, por exemplo, sob um magnífico céu de fim de tarde como este. Instantes impressos nos dias que se desvanecem e passam depressa, depressa...

Escuto novamente aquela voz infantil, o tema já é outro,

"O que é o Amor? Eu gostava de saber, é melhor perguntar à mamã!"

O menino tem a certeza que a mãe, que rega as flores, lhe vai dar uma resposta. E dá,

"O Amor é uma coisa que se abre lentamente, como as flores na Primavera!"