terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A tarde corria dourada e preguiçosa, e a conversa entre Ana e Teresa girava à volta da vida das duas, uma virada para fora, outra para dentro. A primeira a tentar sufocar a relação que tinha com o companheiro, a outra a tentar resgatar uma série de coisas dentro de si mesma.

Ana dizia que tinha de ter um filho e que tinha de decidir se compravam a casa, pois sabia (oh certezas absolutas da imaturidade) que Carlos nunca se iria embora da vida dela se isso acontecesse! Repetia "para sempre" no seu discurso ansioso. Teresa falava-lhe da insatisfação gigante por detrás dos "para sempres", e nos projectos em construção que caem por terra enquanto tentas preencher a relação com bens ou filhos ou... e passas a ter uma obsessão e a gastar um imenso caudal de energia em vão. Dependes de alguém permanentemente e isso é muito cansativo para os dois.

Teresa dizia pacientemente:

"Fala-se do Amor como sendo algo difícil de encontrar, tipo tesouro no deserto. Ou que podes ter uma sorte incrível e alguém to traz sem pedires. E que quando acontece, é suposto fazeres um esforço muito grande e sacrifícios para o alimentares. Nada disso! Na verdade só tens de escolher estar e ser tu próprio."

Ana perguntava se valia a pena lutar, com o canto da boca a tremer ligeiramente, enquanto segurava o copo de sumo de uma maneira que fazia lembrar as crianças quando ficam desapontadas.

Teresa acendeu um cigarro e respondeu devagar:

“Ana, o Amor está dentro de ti. Se lutas, é território. O Amor não tem barreiras nem fronteiras, permanece sem possuir e permite-te seres inteiro e aceitar o outro como ele é. Só dessa forma é possível estares com alguém e sentir que chegaste a casa e não te falta nada!"



Gerês

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