domingo, 26 de março de 2017

As águas de Março caíam livremente, e os dois caminhavam muito juntos debaixo do guarda-chuva verde que Clara escolhera, sem hesitar, na loja em frente a casa, agradecendo mentalmente ao chinês (chinesa?) que tinha inventado essa maravilha não tecnológica. Tinha saído, já atrasada, ao encontro de Pedro, que a convidara para tomar “algo” nessa manhã que já ia longa. Tomara que fosse mais do que café.

Conheciam-se há tempo suficiente para que o olhar dele não desaparecesse da frente dela. Quanta presença é necessária para que a pele queime? Não conseguia dizer. Que palavras proferidas pelo outro abrem comportas e fazem jorrar as nossas próprias palavras? Mistério. De onde nasce a ternura que tem urgência em afagar os cabelos? Também não sabia responder! Por isso olhava o relógio, na esperança de que já fossem horas no Tempo para que os beijos pudessem permitir as respostas a estas e a outras perguntas.

Ele com o braço por cima dos ombros dela, que por sua vez, lhe admirava o pulso moreno.

Escolheram tomar café no Espaço Novo.

Clara continuava focada no pulso de Pedro (que fascínio nos empurra a atenção para um determinado ponto do Todo?), e rodeou-lho com os dedos polegar e indicador, que não uniam. Ele não ofereceu qualquer resistência. Riu-se,

“És pequena.”

O riso foi tão límpido, que Clara estremeceu. Pedro continuou,

“Eu gosto que sejas pequena. Se fosses maior, também gostava. Gosto de ti.”

Ela só sentiu. Como quando temos algo de sublime no céu da boca, e o sabor se espalha pelo corpo e pela alma.

Silêncio confortável.

E depois,

“Está um frio! E estas águas de Março...”

“Essas não são só no Brasil?”

“As águas caem quando e onde querem, como as flechas do Cupido.”

“Que farias nas águas do Brasil?”

“Navegava contigo, pois claro!”

“E as piranhas?”

“Prefiro mangas.”

E constataram, naquele momento, que a chuva e o café, misturados com flechas e mangas, são a fórmula perfeita para beijos quentes e demorados, de arrepiar!






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