quarta-feira, 13 de julho de 2016

Há 28 anos atrás, no dia 9 de Julho, eu e os meus irmãos éramos jovens demais para ficarmos órfãos de pai. Mas ficámos. Nesse dia eu fiquei sem saber se valia a pena ter Fé na Vida (como ele dizia e sabia lá eu o que era isso) e senti a mesma angústia que ele por não podermos crescer os quatro, ele como pai e nós como filhos. Não tivemos Tempo.

Passados todos estes anos, o processo de criação da minha própria vida continua a ser mais difícil sem pai para me ensinar. Continuo a não gostar de viver sem as apreciações, as reflexões, as atitudes do meu pai. Gostava de poder continuar a olhar para papéis escritos com aquela letra tão peculiar de quem preferia as esferográficas em vez da máquina de escrever. Está bem presente a lembrança do olhar por cima dos óculos na ponta do nariz quando lhe interrompia a leitura do jornal e a imagem dos Ray-Ban no rosto bronzeado quando era Verão e tudo parecia mais simples. Não tive Tempo de saber que expectativas tinha ele em relação a mim. Não imaginam como é duro não cumprir pelo menos alguns dos sonhos que o pai tem para nós por não sabermos quais são e mais duro ainda não poder ir contra o que ele pensava, contestar, perceber as diferenças, estão a ver? Dar-lhe oportunidade de argumentar quando o considerei um incapaz por não me defender de quem me feriu quase até à morte. Discutir com ele quando já não estava foi frustrante. Mas agradeço TUDO, porque o que guardo do meu querido pai dentro de mim é tão grande que lhe permite continuar vivo, imortal em preciosas memórias. Lindo que ele era, com uma graça natural, optimista e incapaz de deixar um amigo desamparado, apaixonado pela música e pela arte, tão à-vontade no tasco do bairro como no jantar da embaixada. Um dom raro, digo eu.

Porque os filhos são do Pai e da Mãe, também agradeço a presença da minha outra metade e o Tempo que ela tem tido para falhar redondamente e ser fantástica e maravilhosa como só as Mães podem e sabem. Ainda posso abraçá-la dar-lhe muitos beijinhos porque ela cheira tão bem a mãe! Com o meu pai isso não é possível, o cheirinho dele é só uma recordação. Tudo o que era suposto vivermos juntos foi levado pela Morte há 28 longos anos. Entretanto, a adolescência passou sem ele. Procurei-o em vão noutras pessoas. Os meus queridos filhos conheceram o avô por fotografias. Não posso dizer nunca (como digo à minha mãe) «Ó pai, põe as costas direitas, tu não vais ficar velhinho» e outras coisas, tantas!!!

Ah, o Tempo que achamos que temos!

E porque daqui eu vejo-o sempre:

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